"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Vida de Ozanam ( IV)

          Vida de Ozanam (IV)

A Primeira Sessão

Assentados os fundamentos da nova empresa, realizou-se imediatamente a primeira sessão, presidida por Bailly, provavelmente a 23 de Abril de 1833, após invocação ao Espírito Santo, e leitura piedosa, extraída da “Imitação de Cristo”. Adoptou-se, então, como obra fundamental a visita a famílias pobres nos domicílios, não devendo os socorros ser dados em dinheiro, mas em “vales” para desconto em determinados fornecedores. Esse plano vem sendo reproduzido até hoje, ainda que com modificações.

Aceito o programa estabelecido, cumpria encarar seu desempenho, a começar pelas reuniões e pela obtenção dos indispensáveis recursos. Estabeleceram-se sessões semanais, contribuindo cada membro com o que pudesse, sem que um soubesse a quantia dada pelo outro. Porque, afinal, o objectivo da obra, conforme Bailly, era menos de beneficência do que de moralização e de confraternização, tendo em vista os pobres e os que iam assisti-los. São Vicente de Paulo foi designado como protector.


Apoio das Filhas da Caridade

Estabelecido que os socorros às famílias assistidas seriam em “vales”, surgiram dois problemas: como escolher essas famílias e como organizar a respectiva assistência. Reconhecendo sua inexperiência no caso lembraram-se de recorrer à célebre Irmã Rosalie, Filha da Caridade, Congregação fundada por São Vicente de Paulo, e que presidia uma organização de assistência à pobreza no bairro de Mouffetard, podendo-se conseguir dela uma lista de famílias necessitando de receber auxílios.

Acontecia que Jules Devaux, aliás indicado Tesoureiro da nova obra, conhecia Irmã Rosalie, por ter sido representante da rua Epée-de-Bois junto à religiosa, cuja acção caritativa enchia toda Paris. Ela prodigalizou-lhe a melhor acolhida, encorajou a acção dos jovens, orientou-os, entregando-lhes uma lista de famílias a visitar, fornecendo também “vales” para carne e pão, visto que a Conferência ainda não emitira os seus.

As Primeiras Visitas

Escolhidas as famílias a socorrer, cada “confrade”, pois foi esse o título que se deram, trataram de pôr mãos à obra. Era de ver o entusiasmo com que se entregaram à tarefa, descobrindo verdadeiro mundo novo de confraternização cristã. Em contacto com o sofrimento e as misérias humanas, aqueles jovens passaram a compreender melhor o valor da caridade bem ordenada e as palavras de Cristo fazendo do amor ao próximo um Novo Mandamento.

A Ozanam coube assistir um caso de miséria moral acima da material: uma infeliz mulher se matava no trabalho para sustentar cinco filhos; seu companheiro, chegando em casa embriagado, tomava-lhe o dinheiro e ainda batia nela e nos meninos. Ozanam conseguiu separá-la, pois não eram casados, obteve meios para que ela voltasse ao interior com dois filhos, empregando os demais nas oficinas de Bailly. Era a assistência total, exemplo do futuro papel das Conferências.

Audiência com o Papa Gregório XVI

Por iniciativa de seu pai, Ozanam passou as férias de 1833 na Itália, medida prejudicial aos intentos da família, que era vê-lo formado em Direito, enquanto a visita aos centros culturais italianos mais aumentaria no jovem a atracção pela Literatura. O Papa Gregório XVI recebeu João Antonio Ozanam e os dois filhos em audiência particular, apresentados pelo Cardeal Fesch, Arcebispo de Milão. Ao regressar, Ozanam muito sofreu, impedido de seguir sua vocação.

Dedicação ao Curso de Direito em respeito aos pais

Voltando à França, os estudos de Direito o aguardavam, juntamente com os exames para licenciatura como advogado. Era um passo decisivo. Seu pai e sua mãe nem de longe queriam que ele se formasse em Letras,
coisa sem futuro, diziam eles. Por isso o jovem reafirmou, em carta à mãe, juramento de fidelidade ao Curso Jurídico. Apenas pedia que permitissem a consolação de um pouco de literatura para, ao menos, adoçar as amarguras da jurisprudência.

Diante desse juramento, Ozanam empregava oito horas diárias, excepto aos domingos, no estudo do Direito. Ao mesmo tempo frequentava cinco cursos da matéria, praticando ainda advocacia. Via nisso uma loucura, pois sua vontade era escrever sobre outras coisas que não assuntos forenses e não pensar em assuntos de cartório. Ainda dava graças a Deus por lhe permitirem, com a advocacia, praticar a oratória, o que lhe facilitava cultivar a literatura, “mãe da eloquência”.


Apesar de tudo, a escolha de uma carreira o torturava. Ainda chegou a pensar em acumular a advocacia com a literatura. Se pudesse preferir esta, faria o “apostolado das letras, pela pena e pelo ensino. Aliás, de toda parte vinham confirmações a favor das letras, como solicitações para artigos de jornais, reuniões intelectuais, conferências sobre literatura. Não seria tudo isso manifestação da vontade de Deus? Mas a decisão da família estava do outro lado.

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