«Somos chamados ao trabalho desde a nossa criação. Ajudar "pessoas em situação de pobreza", deve ser sempre um remédio provisório. O verdadeiro objectivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho» Laudato Si: página 88.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Vida de Ozanam (XIV)

O turismo religioso de Ozanam

Peregrinando pelo Sul da França, ia também visitando as conferências vicentinas. Sentia-se bem naquele meio. Durante as visitas, animava e exortava. Em Eaux-Bonnes, surgiu, nos poucos dias de sua permanência, um centro de irradiação da caridade evangélica.

Em Biarritz, sentiu melhorar um pouco sua abalada saúde. Desejou visitar a Espanha e rever São Tiago de Compostela, outrora meta dos peregrinos italianos e franceses. Foi uma viagem penosa, a exemplo dos cristãos dos tempos passados.
Burgos também o atraiu com seu belo templo dedicado a Maria Santíssima. Ao entrar naquela igreja majestosa, suplicou: “Nossa Senhora, Virgem Poderosa, que aqui tendes um edifício tão belo, fortalecei o edifício frágil e destroçado do meu corpo. Fazei que chegue até o céu o edifício espiritual de minha alma”. Transpondo os Pirineus, tornou a pisar o solo francês. Como se aproximasse o inverno, decidiu passá-lo em Pisa, na Itália, cujo clima era salutar.

Ozanam consegue autorização para funcionamento das conferências de Pisa, Florença e Livorno

Parecia que Ozanam desejava encher-se das últimas consolações e propagar ao máximo o ideal da Obra Vicentina. Na Toscana, por exemplo, as conferências não obtiveram ainda a autorização do Grão-duque para funcionar. Este temia que se tratasse de mais uma associação de políticos. Ozanam chegava, pois, a tempo para dissipar os mal-entendidos. Sabendo que se encontrava em Pisa a Grã-Duquesa, decidiu ele visitá-la para esclarecer as finalidades das Conferências Vicentinas.

Os amigos tentaram dissuadi-lo, aconselhando que, ao menos, deixasse passar a febre. Ozanam ponderou: “Estou mesmo mal. Mas enfim, é o último serviço que posso prestar à Sociedade de São Vicente de Paulo. Foram tantos e tais os benefícios que dela tenho recebido que não posso deixar de dar-lhe o meu último sacrifício, se Deus me der forças”. A Grã-Duquesa o recebeu com toda a afabilidade, pois já o conhecia como autor consagrado.

Não ocultou a Ozanam as prevenções do Grão-Duque contra as Conferências e, de modo particular, a de Florença. Ozanam retrucou respeitosamente, mostrando como nada havia de política na , Obra Vicentina mas tão-somente a caridade operosa ditada pelo Evangelho. A Grã Duquesa não deixou transpirar qualquer sinal de aprovação, limitando-se a ouvir. Entretanto, dias depois, as Conferências de Pisa, Florença e Livorno recebiam a autorização do Grão-Duque para funcionarem, pela influência de Ozanam.

Ozanam visita a conferência de Florença

Uma visita a Florença era para aquele abençoado peregrino muito oportuna e até necessária. O último resultado das negociações junto à Grã-Duquesa em favor das conferências, tornaram Ozanam ainda mais estimado entre os católicos daquela cidade.

Convidado a comparecer a uma reunião da conferência, lá fez uso da palavra, em língua italiana. Seu discurso causou a melhor impressão, a ponto de ser reproduzido nos jornais católicos da cidade. Ozanam irritou-se com aquela divulgação.

A Oração do Abandono

Havia comparecido à reunião com a alma comovida, a ponto de externar a Lallier: “As línguas são diferentes, mas é sempre o mesmo aperto de mãos, a mesma cordialidade fraternal; podemos nos reconhecer pelo mesmo sinal com que distinguiam os cristãos nos primeiros tempos da Igreja: Vejam como eles se amam!”. Entretanto, combatia a notícia espalhafatosa: “É inteiramente oposta ao espírito e aos costumes da Sociedade. A conferência fará maior bem quanto menor for o ruído”.

O ano de 1853 encontrou Ozanam em Pisa, cuja placidez repousante deu-lhe um período de tranquilidade. Na primavera instalou-se em São Jacó, perto de Antignano e de Livorno. Ao lado de sua esposa e de sua filha, escrevia a sua obra derradeira: “Peregrinação ao País do Cid”. A 23 de Abril compôs a bela oração do abandono, uma súplica de quem não desejava morrer mas aceitava plenamente a suprema vontade de Deus:

“Será necessário, Senhor, que eu renuncie a todos os bens que me dispensastes. Não quereis que eu Vos dê somente uma parte do sacrifício? Qual das minhas afeições desregradas desejas que eu imole? Não aceitaríeis o holocausto do meu amor-próprio literário, das minhas ambições académicas, dos meus projectos de estudo, onde ressalta mais orgulho que zelo pela verdade?

Se eu vendesse metade dos meus livros e desse o preço aos pobres…” “… Se, limitando o meu trabalho, eu consagrasse o resto da minha vida a visitar os indigentes, a instruir os ignorantes, ficaríeis satisfeitos, Senhor, e me concederíeis a doçura de envelhecer junto à minha esposa e de completar a educação da minha filha?”. “Talvez, oh meu Deus, não queirais nada disso. Vós não aceitaríeis a minha oferta egoísta, o meu holocausto e o meu sacrifício. É a mim que quereis. Eu vou, oh Senhor!”

O testamento de Ozanam

A convicção da morte próxima, obrigava-o a pensar no seu testamento que foi redigido naquela mesma data. É sóbrio e muito eloquente. Julgando-se grande pecador, começava por entregar sua alma à misericórdia infinita de Deus. À Amélia, sua doce esposa, deixava um curto adeus, marcando encontro no reino do céu. À Maria, sua filha adorada, deixava a bênção dos Patriarcas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…

Continuando pedia perdão pelas faltas com que, por infelicidade, houvesse magoado parentes e amigos. Finalmente, suplicava aos membros da Sociedade de São Vicente de Paulo que rezassem por sua alma. Dizia Ozanam: “Não vos deixeis iludir pelos confrades que vos disserem: ele já está no céu. Orai muito por aquele que tanto vos ama, mas que tanto tem pecado. Confiado nesta certeza, deixarei a terra com menores receios”. Ozanam não alimentava mais ilusões de cura.


domingo, 16 de março de 2014

Vida de Ozanam (XIII)

Papa Pio X elogia Ozanam

Os artigos de Ozanam não eram políticos, mas sociais. Sustentava depender a salvação da Sociedade cristã, da caridade dos católicos, apontando a Sociedade de São Vicente de Paulo como designada por Deus para isso.

Pleiteava uma agitação caridosa para aliviar a angústia do povo. A revolta fora esmagada mas restava um inimigo que queria ignorar: a miséria. Mais tarde, Pio X apontava Ozanam como mestre e chefe daqueles que procurassem dar uma disciplina cristã à Sociedade.

Continuando suas aulas na Sorbona, Ozanam aproveitava os temas do programa para destacar o papel da Igreja na educação das massas indisciplinadas da Idade Média. Demonstrava que só se civilizam os homens agindo sobre suas consciências e que a primeira vitória tem que ser sobre suas paixões.

Dentro dessa conceituação escreveu obras como a Civilização do Século V. Os Germanos antes do Cristianismo, A Civilização Cristã entre os Francos e Bens da Igreja.

Ozanam volta a ficar doente

A nefrite que o atacara em 1846 voltara a manifestar-se em 1849. Os sofrimentos aumentavam e ante os sintomas alarmantes da enfermidade, os médicos prescreveram-lhe repouso absoluto. O trabalho, as lutas, os sofrimentos morais apressavam sua ruína. Uma viagem à Bretanha concorreu para uma aparente melhora. Ele dizia que Amélia se alegrava por ver voltarem ao seu rosto as cores da saúde. E tentou trabalhar.

Escrevendo ao seu grande amigo Jean Jacques Ampère, companheiro desde a juventude, Ozanam dizia-lhe “estar de tal modo fatigado que ficava impedido de cumprir seus deveres e até alguma distracção”. “Com as doçuras do lar, Deus me concedeu falta de saúde. Que Ele seja bendito com essa partilha”. Por isso o mesmo Ampère declarou: “O que Ozanam colocou acima de tudo foi a sua grande fé católica, a soberana senhora de toda sua vida”.
Ozanam era homem de oração. Todos os seus actos e escritos respiram este incenso. A comunhão frequente era o apoio de sua vida espiritual, e, sobre ela, assim se manifestava: “Quando a terra inteira vier a abjurar o Cristo, haverá sempre, na doçura da Comunhão e no consolo que ela oferece, uma força de convicção que me fará abraçar a Cruz e desafiar a incredulidade da terra”. Em tudo ele via a vontade de Deus.

O devotamento de Ozanam aos pobres era impressionante. A Sociedade de São Vicente de Paulo constituía sua outra família. A visita aos pobres de sua Conferência e os serviços que lhes prestavam eram para ele um exercício religioso. Sentia consolação em penetrar nas miseráveis moradias dos assistidos, cumprimentando-os afectuosamente, dizendo “sou um seu criado”. Nessas visitas encontrava conforto para suas preocupações e coragem para seus empreendimentos. E, por isso, mais os amava.

A Sociedade se dissemina pelo mundo

A Sociedade de São Vicente de Paulo cada vez mais se disseminava pelo mundo. O Presidente Baudon retomava aos poucos a direcção geral, o que fazia Ozanam ir-se afastando gradativamente. E, 1851 registaram-se 247 agregações de novas conferências na Europa e América.

E o Relatório do ano, comentando a inauguração do Telégrafo Submarino, dizia que a Caridade era um fio muito mais eléctrico que estava ligando os dois mundos.

Mesmo doente Ozanam continua a leccionar

Após as férias forçadas, que se prolongaram mais do que esperava, Ozanam preparou-se, em 1852, para retomar seu Curso na Sorbona. O irmão, Padre Afonso, procurava dissuadi-lo, havendo ele respondido que tinha um dever a cumprir: “Que dizer do soldado que recusa ficar na brecha, receando morrer?” Por isso entendia que deveria permanecer no seu posto e nele morrer se fosse preciso. Aos médicos sustentava que ficava pior com a inacção. Precisava trabalhar.

As suas aulas, apesar da fadiga, continuavam a obter grande frequência. E a juventude não perdia ocasião para aplaudi-lo, o que muito o excitava, procurando corresponder àquele entusiasmo. Queria sempre mais, e como não podia ir além de suas forças, já combalidas, dizia-se desesperado com o que ele chamava de esterilidade desoladora. Lamentava-se de possuir ideias sem poder transmiti-las. E pedia a Deus um pouco de saúde e de vida.

Ozanam esperava conseguir melhoras com as férias da Páscoa. Mas veio nova recaída, agora acompanhada de pleurite, com muita febre. Recolhido ao leito, por ordem dos médicos, pediu ao Reitor anunciasse o adiamento das aulas. Os estudantes, embora muito gostassem do querido professor, externaram seu desapontamento. Ignorando a doença do mestre, murmuravam, dizendo que os professores eram pagos para dar aula. Essas reclamações chegaram aos ouvidos de Ozanam. É de ver como o deixaram chocado.

Tomado de desgosto e alegando que precisava merecer o pão que ganhava e dever honrar a profissão, Ozanarn levantou-se, e mau grado as lágrimas da esposa, as determinações dos médicos e amigos, desceu as escadas e se fez conduzir à Sorbona. Ali entrou apoiado num braço amigo, febril, muito pálido, mais parecendo um fantasma do que um vivo. Os estudantes compreenderam o erro cometido, não escondendo o remorso que lhes estava remoendo a consciência.

O tocante espectáculo oferecido por Ozanam enfermo, diante dos alunos espantados, recordava palavras ditas antes: “Todos os dias nossos irmãos se deixam morrer como missionários nas terras d’África. E nós, que fazemos? Acreditais que Deus tenha dado a uns morrer a serviço da Igreja e a outros se deitarem sobre rosas? Acreditar nisso seria uma acusação a Deus. Preparemo-nos para provar que também temos nossos campos de batalha e que sabemos morrer”.
Subindo os degraus da cátedra, Ozanam debruçou-se sobre os apontamentos da lição. Levantando a cabeça, passou os olhos ardentes de febre sobre o auditório. Os aplausos reboaram. Feito silêncio começou a lição, falando clara e pausadamente: “Senhores, o nosso século é acusado de egoísmo e que esta epidemia afecta os próprios professores…” “Entretanto, é aqui que alteramos nossa saúde e gastamos nossas forças… ” Grave silêncio caiu sobre a classe.

Ozanam continuou: “Não estou aqui para queixar-me; a minha vida vos pertence e vós a tereis…” “Da minha parte, se eu morrer, garanto-vos, será pelo vosso serviço”. Ozanam desenvolveu naquele dia uma aula de rara eloquência, a ponto de ser cercado pelos discípulos, ao término da lição, para externarem sua comovida admiração. Respondia-lhes Ozanam: “Sim, sim. Agora, preciso dormir à noite”. Mas não conseguiu, dada a violenta febre.

Seguindo conselho médico Ozanam viaja para o Sul

Os dias de moléstia que se seguiram não o afastaram do apostolado religioso, datando dessa época o começo da conversão de um amigo. Este objectava que a eternidade das penas do inferno contrariava a bondade de Deus. Ozanam esclarecia: “Pensais, meu amigo, que aqueles que duvidam do dogma do inferno, assim o fazem por sentimento humanitário? Não. É porque não possuem o sentimento bastante vivo do horror ao pecado e da justiça de Deus”.

A conselho médico, Ozanam devia abandonar Paris e empreender uma viagem pelo Sul, percorrendo a Espanha e a Itália. Para Ozanam, seu afastamento das aulas na Sorbona, seu afastamento do campo de ação do apostolado cristão, onde deixava os discípulos, os amigos e, principalmente, os seus pobres, representava uma dolorosa situação. Por quanto tempo se afastaria? Quem sabe? Talvez para sempre … Era preciso saber oferecer aquele sacrifício, ao abandonar tudo que fora a sua vida.

Escrevia então Ozanam: “Quem morre sem acabar a sua tarefa tem, aos olhos da Suprema Justiça, o mesmo mérito de quem pôde acabá-la completamente. Os maiores homens não são os que pretenderam estabelecer o plano do seu destino mas os que sempre se deixaram guiar por Deus” . Ozanam curvava-se com docilidade aos desígnios da Providência Divina. A viagem que ele empreenderia agora seria a última. Ele o sabia. Antes de partir quis comungar.

Amélia acompanhou como sempre o marido e na igreja colocou-se, ajoelhada atrás dele, coberta de lágrimas. Todo seu valor e resistência, até então demonstrados, desapareceram. E rezava, pedindo a Deus que não o tirasse. Nesse instante, teve como que uma visão, olhando para a parede da capela, onde aparecia uma inscrição: “Aqui jaz Frederico Ozanam” Era, talvez, o anúncio fatal de uma desgraça bem próxima. Em 16 de julho de 1852 eles deixaram Paris.


sexta-feira, 7 de março de 2014

Casa Ozanam

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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Vida de Ozanam (XII)

Governo francês faz apelo aos vicentinos para que socorram as famílias desamparadas pela revolução.

A revolução, com a pilhagem e os incêndios, desencadeara a miséria e a fome entre a, população pobre. O Governo fez um apelo aos vicentinos para que se ocupassem dos socorros às numerosas famílias desamparadas, “levando-lhes auxílios para salvá-las da fome e boas palavras que lhes acalmassem o furor e as afastassem do desespero”. Embora advertidos de que poderiam ser recebidas as balas, centenas de vicentinos se apresentaram, sendo desde logo atendidas 2.500 famílias.

A acção dos vicentinos havia sido muito proveitosa, tanto no tocante à assistência material como moral. O representante do Governo, Dr. Trelat, conhecido anticlerical, assim manifestou seu agradecimento: “Os vicentinos mataram a fome dos que agonizavam na miséria, acalmaram suas almas irritadas, fizeram renovar a confiança e a esperança nos seus corações cheios de cólera e desespero”. Outro angustioso apelo surgiria: A cólera se abatera sobre Paris, sendo os vicentinos convocados para assistir os pestosos.

A luta contra a cólera abre portas para a religião

A bravura cristã dos vicentinos durante a epidemia de cólera foi espectacular. Como disse Ozanam, eles enfrentaram “um povo dizimado, uma administração desorganizada, uma ciência apavorada. No entanto, com grande sabedoria, sem comparar sua fraqueza à grandeza do perigo e das necessidades, colocados à disposição das Irmãs de Caridade e das ambulâncias médicas, cuidaram de mais de dois mil doentes em dois meses, três quartos dos quais escaparam; os que morreram receberam os sacramentos da Igreja”.

Passada a tormenta, milhares de famílias recobravam seus entes queridos curados, externando sua admiração e reconhecimento por aqueles jovens vicentinos, que, contrariando seus parentes, tudo deixavam para cuidar dos pestosos. E não ficou só nisso a caridade vicentina: ofereceu e conseguiu lares para milhares de órfãos, cujos pais a peste havia tragado. E o melhor é que a fé renascia sob o manto da Caridade, e a Religião via abertas portas antes fechadas.

Ozanam desenvolve publicações para formação social e religiosa

No turbilhão de todos aqueles acontecimentos, Ozanam ainda achava tempo para trabalhar no campo da imprensa, fazenda circular em 15 de abril de 1848, o jornal ERA NOVA, secundado pelos padres Lacordaire e Maret. Propunha-se defender a Religião, a República nascente e a Liberdade. E afirmava que “não havendo mais o constrangimento das trincheiras nas ruas, iria apresentar verdades que deixaram de ser perigosas quando antes eram utilizadas apenas pelos maus, para enfeitar seus fuzis nas barricadas”.

O ano de 1848 exigira de Ozanam trabalhos os mais árduos, tanto no campo material como no intelectual. Dirigindo as actividades da Sociedade de São Vicente de Paulo, enfrentara a assistência a 200 mil desempregados, aos famintos, aos pestosos. Desenvolvia publicações populares para formação social e religiosa e se esforçava para multiplicar conferências tanto na França como no estrangeiro. A ERA NOVA tomava “todo o tempo que sobrava dos exames”. Ozanam não desperdiçava tempo.

O Partido da Confiança

A pretensão de Ozanam era assegurar “à Igreja lugar no triunfo da Democracia, chegando mesmo a criar um movimento chamado Partido da Confiança. Como tal pretensão seria mais acessível com representantes na Assembleia, o nome de Ozanam foi lembrado. Ele recusou, alegando não ser homem de acção nem de comícios.

Mas, de Lião, veio um apelo patético, e Ozanam acabou aquiescendo. Isto nas vésperas do pleito, obtendo ainda 16 mil votos, insuficientes, porém, para eleger-se.

Ozanam encerra as actividades do Jornal Era Nova

Era infalível que as directrizes apontadas na ERA NOVA descontentariam muitos católicos. O revide partiu do órgão católico UNIVERSO, dirigido pelo eminente batalhador, mas ferrenho tradicionalista Luis Veillot, acusando Ozanam de tomar falsos rumos. Chamava a ERA NOVA de “Erro Novo”.

Com seu jornal, abençoado, aliás pelo Arcebispo, Ozanam desejava apenas unir os católicos. Daí preferiu fechar a folha. em Abril de 1849, declarando: “entre cristãos o mais prudente é não odiar por questões tão controvertidas”.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Vida de Ozanam (XI)

Defensor da democracia e dos direitos trabalhistas

Nas épocas de agitação entre os homens, Deus suscita iluminados que apontam meios para uma reforma de costumes. Ozanam foi designado pela Providência para advertir transviados e ajudar os necessitados de amparo. Como acontece com todos os profetas, não foi compreendido. Quando ele afirmava que, além da esmola, obrigação de todos, o povo precisava de instituições que o tornassem melhor, o que se conseguiria com a introdução da democracia, muitos viam nele um agitador.

O pensamento de Ozanam, exposto em seus escritos, convence que ele, possuía a visão do futuro. Antevia os acontecimentos. “Hão de surgir novos céus e novas terras” e “diante da realidade, o primeiro dever do cristão é não atemorizar-se, e, o segundo, não atemorizar os outros. Perante as crises políticas e acima delas está a Providência”. “Aprendi da História que a Democracia é o termo natural do progresso político, deixando assegurada a liberdade da Igreja”.

A presença de Ozanam junto às classes desprotegidas nele desenvolvia elevado senso social. E do apostolado da Caridade ao apostolado social não houve quase intervalo. Como Professor de Direito Comercial penetrou fundo no problema da vida operária, apontando soluções depois aproveitadas na encíclica RERUM NOVARUM, de Leão XIII. Foi ele que esclareceu o “justo salário”, afirmando haver exploração quando a retribuição real do assalariado é inferior às suas necessidades normais.

Ozanam já afirmava em 1836, que “a questão que divide os homens é uma questão social, restando saber se a sociedade será a exploração em proveito dos fortes ou uma consagração para amparar os fracos. Há os que possuem demais e os que nada possuem. Estes acabarão tomando aquilo que lhes estão negando. Uma terrível luta se prepara entre essas duas classes: de um lado o poder da riqueza, do outro o poder do desespero”.

Momentos turbulentos na Europa

A humanidade vivia angustiada. Revoluções políticas, desordens sociais, lutas de classes levaram à anarquia vários países. Ozanam convocava os cristãos para se colocarem entre os dois campos em luta, campos por ele apontados desde 1836. Os católicos não lhe deram ouvidos. Preferiram permanecer insensíveis, esquecendo os oprimidos. E o resultado foi o Manifesto Comunista de Karl Marx, lançado em fevereiro de 1848. Não quiseram ouvir o arauto da Igreja, iriam sofrer os golpes dos comunistas.

Com a revolução republicana de 1848, viram-se os vicentinos envolvidos na luta sangrenta, procurando defender a Democracia nascente, que estava sendo ameaçada pelos aproveitadores da situação, desejosos de transformar o movimento em intentona comunista. Ozanam, que sempre defendera os operários, explorados pela burguesia capitalista, procurou colocar-se entre os dois campos, como ele sempre aconselhara, a fim de afastar o perigo vermelho e atrair os transviados para o bom caminho.

Novo presidente do Conselho Geral é ferido gravemente em combate

A direcção da Sociedade de São Vicente de Paulo acabara de receber novo Presidente Geral. Gossin renunciara o cargo por motivo de doença grave, sendo eleito em 14 de Fevereiro de 1848 o confrade Adolpho Baudon, de 28 anos, “jovem, activo, dedicado às obras”. Para defender a Democracia, sob os ataques dos vermelhos, Baudon alistou-se na Guarda Nacional, o que também fez Ozanam; enquanto combatia bravamente numa posição
avançada, Baudon foi gravemente ferido na perna.

A participação dos vicentinos na refrega sangrenta justificava-se pelo desejo de atrair para a Igreja as simpatias dos republicanos. Isso foi alcançado, com a posterior revogação de todas as leis que entravavam as actividades religiosas. Mas custou o sacrifício de muitas vidas de vicentinos, a invalidez de Baudon, que ficou coxo, e, pior de tudo, a morte do grande Arcebispo D. Affre, ferido a bala, enquanto, tentava a pacificação entre os combatentes.

A morte de Dom Affre trouxe paz aos franceses

Quando maior era a luta nas ruas de Paris, resolveu Ozanam pedir a intervenção do Arcebispo, D. Affre, como pacificador. Este aceitou prontamente, apesar dos perigos da empresa.

Ozanam quis acompanhá-lo, mas ele o dissuadiu, pois estava fardado. Antecedido de um vicentino, com a bandeira branca, o Arcebispo foi bem recebido pelos rebeldes. E já se tinha por conseguida a paz, quando um tiro, vindo de longe, o feriu de morte.

Todos lamentavam e condenavam a dolorosa ocorrência, fruto de inominável traição. O Arcebispo enfrentou o desastre com santa calma, dizendo que o Pastor dava a vida pelas suas ovelhas, e esperava que o seu sangue fosse o último a ser derramado.

Faleceu assistido pelo jovem Carlos, médico, irmão de Ozanam. Os vicentinos choraram a morte do Arcebispo, seu grande amigo e protector. Como ele previra, o sacrifício de sua vida trouxe a paz aos franceses.

Ozanam, vice-presidente do Conselho Geral, faz circular o Boletim da Sociedade

O grave ferimento sofrido por Baudon quase que o fez perder a perna que ele, apesar de horríveis sofrimentos, não permitiu amputassem. Levou, seis meses para relativo estabelecimento, ficando aleijado e suportando padecimentos intermitentes. As sessões do Conselho Geral realizavam-se na residência dele.


Enquanto isso, Ozanam, Vice-Presidente, assumia todos os encargos exteriores fazendo circular, pela primeira vez, em 15 de Julho de 1848, o BOLETIM da Sociedade, até agora espalhado pelo mundo inteiro.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Vida de Ozanam (X)

O nascimento da filha torna a vida de Ozanam ainda mais feliz

Adquirida a estabilidade profissional, assegurada uma situação económica folgada, Ozanam consolidou a família em seu redor. Os dois irmãos passaram a residir com ele e até sua velha ama, Guigui, veio para sua companhia. Ele dizia ter transportado para Paris as paredes paternas com os móveis e tudo. Por fim também vieram sogro e cunhado. Ozanam, entretanto, ainda esperava alguém. Em agosto de 1845 sentia uma das maiores alegrias de sua vida: era Pai.

A disposição com que Ozanam recebeu a filha traduz bem seu procedimento de pai cristão: “Eu vi esta criaturinha, mas criatura imortal, posta por Deus em minhas mãos. Que trazia doçuras mas também obrigações. Distinguia nessa doce figura, plena de inocência, o selo sagrado do Criador. E compenetrava-me de que teria de prestar contas dessa alma imperecível, posta por Deus em minha vida, como um meio amável para me colocar no caminho do Céu”.

Pai e mãe sorriam com os primeiros sorrisos da criança e com impaciência aguardavam seu baptismo. Recebeu o nome de Maria, em lembrança da avó e “gratidão à celeste patrona” a quem atribuía o nascimento. O padrinho foi Lallier. Ozanam via na filha um presente do Céu para fazer os pais melhores. Com o tempo dizia nada haver de mais doce do que, chegando em casa encontrar a amada esposa com a filhinha nos braços.

Foram dos mais felizes os anos de 1844 a 1846, decorridos na paz da família e nas ocupações dos estudos. No lar, Ozanam procedia como esposo amante e pai carinhoso. Na sobriedade de sua mesa não faltava aos domingos um prato saboroso. Todos os meses, na data do casamento, oferecia um presente à esposa. E Amélia executava ao piano os grandes mestres que ele muito apreciava. Em 1846 foi nomeado Cavaleiro da Legião de Honra.

Ozanam recusa o cargo de vice-presidente do Conselho Geral

Nem o lar nem as aulas afastavam-no da Sociedade de São Vicente de Paulo. Bailly deixara a Presidência para evitar perpetuidade. Após oito dias de orações ao Espírito Santo, o Conselho Geral deveria escolher o sucessor.

Elegeram Ozanam, então Vice-Presidente. Ele recusou, indicando Gossin, Conselheiro do Tribunal Real e Presidente da Conferência de S. Sulpício, que lhe pediu continuasse na Vice-Presidência. Concordou. Preferiu o trabalho obscuro, num devotamento contínuo aos interesses da sua “querida Sociedade”.

Ozanam fica enfermo e sofre por não poder visitar os pobres

A resistência física de Ozanam chegara ao máximo. Suas forças não suportaram o excesso de trabalho. Em agosto de 1846 caiu gravemente doente. Uma febre perniciosa o prostrou com perigo de vida. E, como ele mesmo afirmaria depois, não fossem os cuidados do Dr. Gourand e a ternura inteligente e corajosa de Amélia, poderia ter morrido. Após um mês de convalescença não conseguia nem levantar-se. A fraqueza era total. Trabalhar era mesmo impossível.

Apesar de todos os esforços médicos a doença persistia indomável. Tentaram passeios no campo, em vão. Sofria mais por não poder visitar seus pobres, e, para consolar-se, mandava distribuir pão aos que lhe batiam à porta. Também não podia prosseguir nas aulas. Os médicos determinaram um ano de repouso absoluto. O Ministro da Instrução, seu admirador, incumbiu-o de estudos e pesquisas históricas na Itália. Desejava, porém, é que ele se tratasse. Ozanam aceitaria isso?

A recuperação de Ozanam e seu encontro com o papa Pio IX

Felizmente a mudança de ares foi o melhor remédio e Ozanam pôde, sem constrangimento, desempenhar a comissão estipulada pelo Ministro. Sentia-se renascer gozando a viagem e frequentando os museus e arquivos históricos tendo ainda a alegrar-lhe a existência a companhia da esposa estremecida e da filhinha querida. Ele iria empolgar-se com a agitação que invadira a Itália e o arrastaria para a luta noutros importantes sectores dos sofrimentos humanos.

Chegando a Roma, Ozanam procurou em primeiro lugar ver o Papa Pio IX, eleito em Junho de 1846. E ficou deslumbrado com as manifestações que lhe prestava o povo, que, apinhado aos milhares, o aclamava e dele recebia em pessoa a comunhão. Com lágrimas nos olhos, contemplava aquela figura “tão doce, tão santa”, exprimindo tanta caridade. E dizia para si que “era conquistando corações que o Papa conquistaria todos para Igreja”.

O Santo Padre recebeu Ozanam em audiência particular, que ele assim descreve: “Sua Santidade fez minha mulher sentar-se e abençoou minha filhinha de dezoito meses que, ajoelhada, olhava para ele. O Santo Padre falou da França, da juventude, das escolas, com muita emoção”. “Disse que conhecia a Sociedade de São Vicente de Paulo e as boas obras que sua juventude praticava com as visitas aos pobres e doentes, concluindo: Nossa esperança está nessa mocidade”.

Em agosto de 1847, Ozanam regressou recuperado, mas empolgado pelos novos rumos que Pio IX dera ao seu governo espiritual e ao seu reinado temporal. O Papa provocara revolução política nos Estados Pontifícios. Concedera amnistia, determinara a revisão das leis vigentes, criara o Conselho de Estado e estabelecera uma representação comunal. Ozanam presenciara a “marcha triunfal” da multidão, dando vivas a Pio IX. Desde então quis defender também as necessidades políticas e sociais do povo.

Ozanam volta às aulas na Sorbona

Em Dezembro, após um ano de ausência voltou Ozanam às aulas, na Sorbona. Deveria apreciar o “Purgatório”, de Dante, poeta do Cristianismo e da liberdade na Itália. O assunto prestava-se a aplicar, na exposição, o que ele apreciara na Cidade Eterna, nas manifestações populares a Pio IX. E ele dizia ter visto o começo de uma Nova Era, “a sociedade abraçando a liberdade, só possível abençoada pelo Cristianismo”. Ozanam firmava suas convicções sobre Doutrina Social.

Ele estava dominado pela necessidade da mudança do sistema político reinante na Europa, e por isso louvava Pio IX, por “se ter passado aos bárbaros” repetindo o gesto dos grandes Papas da Idade Média, apoiando os chamados “bárbaros” contra os prepotentes senhores feudais. Assim a Igreja salvou toda a Europa. Agora, as massas populares – os bárbaros de hoje – querem participar do Governo. Foi o que fez Pio IX, abrindo ao povo o lugar no poder.

Certos meios católicos não aprovaram as atitudes de Ozanam “exagerando os erros dos conservadores e atenuando os dos revolucionários”. Nesse ínterim, rebentou a revolução republicana na França, com seu cortejo de desordens e destruição. Embora declarando-se contrário à violência e ao saque, Ozanam via no movimento um passo para a Democracia, com muita possibilidade para o reconhecimento dos direitos da Igreja, desde que não se condenasse a vontade do povo, desejoso de liberdade.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Primeiro Plenário Regional 2014 do Conselho Central do Porto

1º. Plenário Regional 2014 do Grande Porto conforme Plano Actividade do Conselho Central do Porto.
O plenário teve lugar no Conselho de Zona Mista de Matosinhos à Rua Carlos Oliveira da Paróquia do Padrão da Légua. Este plenário aberto a todos os conselhos do Grande Porto e Vicentinos. 
Num dos momentos do plenário se pode ver o nosso Presidente Carvas Guedes, do Conselho Central do Porto, a presidir.

Este Conselho tem como vontade nas visitas aos conselhos de zonas do Grande Porto, tempo de formação vicentina. A primeira parte do tema foi retirado das primeiras páginas da REGRA. "Princípios fundamentais da S.S.V.P.", e as acções nos dias de hoje.


foto de um confrade, presente.