"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Vida de Ozanam (VII)


 A morte da mãe de António Frederico Ozanam

Estava Ozanam satisfeito com a nomeação. Via-se livre da advocacia, tinha boa renda, ficando ainda ao lado da mãe, sempre piorando. Por causa dela recusara ser professor de Filosofia em Orleans, cargo oferecido pelo Ministro Cousin. A satisfação durou pouco. Em 12 de outubro ela falecia, tendo-se, como o marido, devotado totalmente aos pobres. Ozanam chorou longamente aquele trespasse. Na sua dor, sentia-a presente, sorrindo-lhe de longe, como costumava ela fazer.

Apesar da realidade, queria continuar com os pais pelo pensamento, pela fé, pelas virtudes, sem qualquer alteração. sentindo a mãe ao seu lado, passava a chorar com mais força, embora inefável paz o invadisse nesses instantes de melancolia. “Quando faço algo pelos pobres, escrevia, que ela tanto amava; quando me entrego a Deus, a quem ela tanto servia; quando rezo, creio escutar sua oração, que acompanha a minha, como fazíamos juntos ao pé do Crucifixo”. Ainda vivendo sua mãe, mais ainda após sua morte, Ozanam andou cultivando veleidades pela vida sacerdotal, animado pelo Padre Lacordaire, ansioso para fazê-lo dominicano. Em fervorosa correspondência, o célebre frade manifestava “grande desejo de chamá-lo um dia meu irmão e meu pai”. Coube ao Padre Noirot e” Montalembert dissuadi-lo desse intento, mostrando que ele não fora feito para a vida religiosa e afirmando que, como leigo, muito mais poderia fazer pela Igreja.

A divisão da primeira conferência produz os frutos previstos por Ozanam.

Entrementes, a Sociedade aumentava suas fileiras de modo surpreendente. Surgiam Conferências nas Escolas Normal e Politécnica, já subindo a 14 as existentes em Paris, com igual número nas Províncias e mais de mil confrades. Estudantes acorriam em bando, aos apelos dos colegas vicentinos, seguidos de nobres, deputados, generais, escritores distintos. Centenas aproximavam-se da Sagrada Comunhão. A divisão da primeira Conferência produzia os frutos previstos por Ozanam. Fora preciso dividir para crescer.

O amor a Sociedade faz Ozanam descartar a ideia da vida sacerdotal

Em 16 de dezembro de 1839 Ozanam inaugurou suas aulas de Direito Comercial na Academia de Lião.
Verdadeira multidão se comprimia na sala, chegando a forçar as portas e quebrar as vidraças. Era impressionante o acolhimento dado àquele moço de 26 anos, que conseguia entusiasmar o auditório com seu saber e sua eloquência. Ozanam programou suas lições de modo prático, pois precisava aproveitar ao máximo o tempo dos ouvintes, para quem as horas valiam cifrões.

Meditando nas ponderações do Padre Noirot e de Montalambert, concluiu Ozanam que, além de razões particulares, justificava seu recuo nas pretensões de uma vida eclesiástica, ressaltando o compromisso indissolúvel selado com a Sociedade de São Vicente de Paulo. Era a ela que se devia dedicar , nela permanecendo para estendê-la no terreno secular, onde ela nascera: obra de apostolado, mas, sobretudo, de apostolado leigo, igualmente sagrado; abandoná-lo seria traição. Ozanam pede Amélia Soulacroix em casamento. Afastada a hipótese de seguir a carreira sacerdotal, a alternativa de Ozanam seria o casamento. Até então não pensara nele. Quando encarava o assunto era para deprecia-lo, vendo na vida conjugal “um egoísmo a dois, incompatível com o apostolado”. Começava, porém, a sentir-se só, especialmente após o falecimento dos pais. Passou a idealizar uma companheira excelente e
virtuosa. Padre Noirot julgou necessário ajudá-lo na escolha, optando pela filha do Reitor da Academia de Lião.
Era Amélia Soulacroix, filha de Jean- Baptiste Soulacroix, Reitor da Academia de Lião, casado com Célia Maganos, norte-americana. Decidiu o Padre Noirot aproximar Ozanam da jovem, combinando uma visita aos pais dela. Tudo acertado, convidou Ozanam a ir à casa do seu Diretor , no que foi atendido. Na entrada, encontraram “por acaso” , madame Soulacroix, a quem foi Ozanam apresentado como jovem professor de Direito. Recebido efusivamente pelo Reitor, com ele manteve cordial palestra.
Enquanto conversava com Soulacroix, observou Ozanam que no aposento vizinho uma encantadora moça cuidava com muito carinho de um rapazinho paralítico. Era Amélia e o irmão único. Toda entretida com o enfermo, ela não prestou atenção ao visitante. Ele, porém, enlevado pela cena, foi tomado de admiração e murmurou: “A amável irmã e o feliz irmão. Como ela o ama!” E seus olhos não se afastavam da moça. Indubitavelmente era amor à primeira vista. Ozanam passou, então, a trazer no coração um sentimento novo. Ele amava Amélia, cujo nome correspondia à fineza dos traços e amabilidade do caráter; ela tinha tudo para agradar ao jovem professor que passou a frequentar a família. E os dois jovens puderam conhecer-se mais profundamente. Meses depois, voltando triunfante, do concurso de Literatura na Sorbona, Ozanam pede Amélia em casamento. Soulacroix, tomando as mãos dos dois jovens entre as suas, consente generosamente.
Ozanam realiza o sonho de trabalhar com Letras, é nomeado professor de Literatura Alemã
Ao mesmo tempo em que desenvolvia suas aulas, aproveitava Ozanam os assuntos para incursões no campo da religião, mostrando que o fundamento do Direito é a Lei Divina, e enquanto expunha os direitos dos empresários lhes apontava os deveres para com os trabalhadores. O Reitor da Academia procurando prendê-lo mais, conseguiu aumento substancial nos seus honorários. Além disso, propôs ao Ministro sua nomeação para Professor de Literatura Estrangeira na recém-criada Faculdade de letras.
O Ministro da Instrução condicionou a nomeação de Ozanam para a nova Cadeira à sua inscrição no concurso de Literatura a realizar-se na Sorbona. O Ministro queria atrair Ozanam a Paris, tão impressionado ficara com sua cultura. Já havia seis candidatos inscritos e preparados há mais de ano. Ozanam iria dispor apenas de seis meses para isso. Mas, desejando atender ao Ministro, concordou; embora tendo poucas esperanças de sair vencedor.
No preparo dos exames dificílimos, gastou Ozanam dias e noites, sabendo que ia enfrentar sérios concorrentes.
Por isto, pouco esperava do concurso. O triunfo, porém, foi espectacular, embora Ozanam considerasse o resultado como “um jogo impertinente do acaso”. Como sempre, Ozanam aproveitou os assuntos para reafirmar sua fé e mostrar o valor do pensamento católico no desenvolvimento do saber humano. Proclamado o resultado, um dos examinadores fez uma proposta a Ozanam.
O examinador pediu-lhe que o substituísse na Cadeira que leccionava naquela Faculdade. A partir desse momento. Ozanam pertencia às Letras e a Paris, porém, mais ainda a Deus, em quem pusera a sua confiança. Desejava regressar a Lião e estar com os irmãos e amigos. Mas precisava preparar-se para ocupar a Cadeira com um Curso de Literatura Alemã. Daí ter que viajar para a Alemanha a fim de organizar as lições com material colhido na fonte.
Após aprovação da noiva Amélia Ozanam decide retorna a Paris Ozanam voltou e sentia-se feliz e confiante especialmente naquela que chamava seu “anjo da guarda”. Quem não gostava era o Padre Lacordaire, que o queria dominicano, e, por isso, viu no noivado “uma armadilha”
supostamente atribuída ao Padre Noirot. Ozanam estava em ótima situação. Recebia 15 mil francos como Professor. Mas recebera convite para leccionar na Sorbona onde só ganharia 5 mil francos, como professor adjunto. Era preciso decidir: Lião, com conforto, ou Paris, com sacrifício. A decisão impunha-se. Lião era a estabilidade financeira, o aconchego familiar, as amizades já estabelecidas, o respeito e a consideração da Sociedade; Paris oferecia apenas uma suplência de professor, honorários reduzidos, situação precária, vida apertada, desconforto. Consultou o futuro sogro. Este preferiria Lião. Mas Paris era o teatro das grandes realizações cristãs, vasto campo da Caridade em ação, a restauração do valor da Igreja entre literatos e cientistas, obra para que era chamado por Deus.

Os argumentos de Ozanarn comoveram Soulacroix, óptimo cristão, que também via as vantagens para a Igreja numa ação decisiva nos meios universitários. Neste caso, perderia a filha. Pediu, então, a Ozanam que a consultasse. Caberia a Amélia a suprema decisão. Teria ela bastante confiança nela, nele e em Deus, para aceitar o sacrifício que Paris reclamaria? Colocando a mão na de Ozanam, ela disse: “Tenho confiança em você”. A sorte estava lançada. Paris vencera.

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