Estava Ozanam satisfeito com a
nomeação. Via-se livre da advocacia, tinha boa renda, ficando ainda ao lado da
mãe, sempre piorando. Por causa dela recusara ser professor de Filosofia em
Orleans, cargo oferecido pelo Ministro Cousin. A satisfação durou pouco. Em 12
de outubro ela falecia, tendo-se, como o marido, devotado totalmente aos
pobres. Ozanam chorou longamente aquele trespasse. Na sua dor, sentia-a
presente, sorrindo-lhe de longe, como costumava ela fazer.
Apesar da realidade, queria
continuar com os pais pelo pensamento, pela fé, pelas virtudes, sem qualquer
alteração. sentindo a mãe ao seu lado, passava a chorar com mais força, embora
inefável paz o invadisse nesses instantes de melancolia. “Quando faço algo
pelos pobres, escrevia, que ela tanto amava; quando me entrego a Deus, a quem
ela tanto servia; quando rezo, creio escutar sua oração, que acompanha a minha,
como fazíamos juntos ao pé do Crucifixo”. Ainda vivendo sua mãe, mais ainda
após sua morte, Ozanam andou cultivando veleidades pela vida sacerdotal,
animado pelo Padre Lacordaire, ansioso para fazê-lo dominicano. Em fervorosa
correspondência, o célebre frade manifestava “grande desejo de chamá-lo um dia
meu irmão e meu pai”. Coube ao Padre Noirot e” Montalembert dissuadi-lo desse
intento, mostrando que ele não fora feito para a vida religiosa e afirmando
que, como leigo, muito mais poderia fazer pela Igreja.
A divisão da
primeira conferência produz os frutos previstos por Ozanam.
Entrementes, a Sociedade aumentava
suas fileiras de modo surpreendente. Surgiam Conferências nas Escolas Normal e
Politécnica, já subindo a 14 as existentes em Paris, com igual número nas
Províncias e mais de mil confrades. Estudantes acorriam em bando, aos apelos
dos colegas vicentinos, seguidos de nobres, deputados, generais, escritores
distintos. Centenas aproximavam-se da Sagrada Comunhão. A divisão da primeira
Conferência produzia os frutos previstos por Ozanam. Fora preciso dividir para
crescer.
O amor a
Sociedade faz Ozanam descartar a ideia da vida sacerdotal
Em 16 de dezembro de 1839
Ozanam inaugurou suas aulas de Direito Comercial na Academia de Lião.
Verdadeira multidão se
comprimia na sala, chegando a forçar as portas e quebrar as vidraças. Era
impressionante o acolhimento dado àquele moço de 26 anos, que conseguia
entusiasmar o auditório com seu saber e sua eloquência. Ozanam programou suas
lições de modo prático, pois precisava aproveitar ao máximo o tempo dos
ouvintes, para quem as horas valiam cifrões.
Meditando nas ponderações do
Padre Noirot e de Montalambert, concluiu Ozanam que, além de razões
particulares, justificava seu recuo nas pretensões de uma vida eclesiástica,
ressaltando o compromisso indissolúvel selado com a Sociedade de São Vicente de
Paulo. Era a ela que se devia dedicar , nela permanecendo para estendê-la no
terreno secular, onde ela nascera: obra de apostolado, mas, sobretudo, de
apostolado leigo, igualmente sagrado; abandoná-lo seria traição. Ozanam pede
Amélia Soulacroix em casamento. Afastada a hipótese de seguir a carreira
sacerdotal, a alternativa de Ozanam seria o casamento. Até então não pensara
nele. Quando encarava o assunto era para deprecia-lo, vendo na vida conjugal
“um egoísmo a dois, incompatível com o apostolado”. Começava, porém, a
sentir-se só, especialmente após o falecimento dos pais. Passou a idealizar uma
companheira excelente e
virtuosa. Padre Noirot julgou
necessário ajudá-lo na escolha, optando pela filha do Reitor da Academia de
Lião.
Era Amélia Soulacroix, filha de
Jean- Baptiste Soulacroix, Reitor da Academia de Lião, casado com Célia Maganos,
norte-americana. Decidiu o Padre Noirot aproximar Ozanam da jovem, combinando
uma visita aos pais dela. Tudo acertado, convidou Ozanam a ir à casa do seu
Diretor , no que foi atendido. Na entrada, encontraram “por acaso” , madame
Soulacroix, a quem foi Ozanam apresentado como jovem professor de Direito.
Recebido efusivamente pelo Reitor, com ele manteve cordial palestra.
Enquanto conversava com
Soulacroix, observou Ozanam que no aposento vizinho uma encantadora moça cuidava
com muito carinho de um rapazinho paralítico. Era Amélia e o irmão único. Toda
entretida com o enfermo, ela não prestou atenção ao visitante. Ele, porém,
enlevado pela cena, foi tomado de admiração e murmurou: “A amável irmã e o
feliz irmão. Como ela o ama!” E seus olhos não se afastavam da moça. Indubitavelmente
era amor à primeira vista. Ozanam passou, então, a trazer no coração um
sentimento novo. Ele amava Amélia, cujo nome correspondia à fineza dos traços e
amabilidade do caráter; ela tinha tudo para agradar ao jovem professor que
passou a frequentar a família. E os dois jovens puderam conhecer-se mais profundamente.
Meses depois, voltando triunfante, do concurso de Literatura na Sorbona, Ozanam
pede Amélia em casamento. Soulacroix, tomando as mãos dos dois jovens entre as
suas, consente generosamente.
Ozanam realiza o sonho de
trabalhar com Letras, é nomeado professor de Literatura Alemã
Ao mesmo tempo em que
desenvolvia suas aulas, aproveitava Ozanam os assuntos para incursões no campo
da religião, mostrando que o fundamento do Direito é a Lei Divina, e enquanto
expunha os direitos dos empresários lhes apontava os deveres para com os
trabalhadores. O Reitor da Academia procurando prendê-lo mais, conseguiu
aumento substancial nos seus honorários. Além disso, propôs ao Ministro sua
nomeação para Professor de Literatura Estrangeira na recém-criada Faculdade de
letras.
O Ministro da Instrução
condicionou a nomeação de Ozanam para a nova Cadeira à sua inscrição no
concurso de Literatura a realizar-se na Sorbona. O Ministro queria atrair
Ozanam a Paris, tão impressionado ficara com sua cultura. Já havia seis
candidatos inscritos e preparados há mais de ano. Ozanam iria dispor apenas de
seis meses para isso. Mas, desejando atender ao Ministro, concordou; embora tendo
poucas esperanças de sair vencedor.
No preparo dos exames
dificílimos, gastou Ozanam dias e noites, sabendo que ia enfrentar sérios
concorrentes.
Por isto, pouco esperava do
concurso. O triunfo, porém, foi espectacular, embora Ozanam considerasse o resultado
como “um jogo impertinente do acaso”. Como sempre, Ozanam aproveitou os
assuntos para reafirmar sua fé e mostrar o valor do pensamento católico no
desenvolvimento do saber humano. Proclamado o resultado, um dos examinadores
fez uma proposta a Ozanam.
O examinador pediu-lhe que o
substituísse na Cadeira que leccionava naquela Faculdade. A partir desse momento.
Ozanam pertencia às Letras e a Paris, porém, mais ainda a Deus, em quem pusera
a sua confiança. Desejava regressar a Lião e estar com os irmãos e amigos. Mas
precisava preparar-se para ocupar a Cadeira com um Curso de Literatura Alemã.
Daí ter que viajar para a Alemanha a fim de organizar as lições com material colhido
na fonte.
Após aprovação da noiva Amélia
Ozanam decide retorna a Paris Ozanam voltou e sentia-se feliz e confiante
especialmente naquela que chamava seu “anjo da guarda”. Quem não gostava era o
Padre Lacordaire, que o queria dominicano, e, por isso, viu no noivado “uma
armadilha”
supostamente atribuída ao
Padre Noirot. Ozanam estava em ótima situação. Recebia 15 mil francos como Professor.
Mas recebera convite para leccionar na Sorbona onde só ganharia 5 mil francos,
como professor adjunto. Era preciso decidir: Lião, com conforto, ou Paris, com
sacrifício. A decisão impunha-se. Lião era a estabilidade financeira, o
aconchego familiar, as amizades já estabelecidas, o respeito e a consideração
da Sociedade; Paris oferecia apenas uma suplência de professor, honorários reduzidos,
situação precária, vida apertada, desconforto. Consultou o futuro sogro. Este preferiria
Lião. Mas Paris era o teatro das grandes realizações cristãs, vasto campo da
Caridade em ação, a restauração do valor da Igreja entre literatos e
cientistas, obra para que era chamado por Deus.
Os argumentos de Ozanarn
comoveram Soulacroix, óptimo cristão, que também via as vantagens para a Igreja
numa ação decisiva nos meios universitários. Neste caso, perderia a filha.
Pediu, então, a Ozanam que a consultasse. Caberia a Amélia a suprema decisão.
Teria ela bastante confiança nela, nele e em Deus, para aceitar o sacrifício
que Paris reclamaria? Colocando a mão na de Ozanam, ela disse: “Tenho confiança
em você”. A sorte estava lançada. Paris vencera.
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