"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Aos pés do seu soldado

Joaquim apresentou-se para o serviço militar obrigatório, interrompendo os seus estudos no seminário. Dizia ele que queria experimentar o serviço militar e aí descobrir realmente se o sacerdócio seria a sua vocação. 
Deu com um sargento de pelotão com maus fígados, que lhe fez a vida negra, quando soube que andara no seminário e era a sua intenção continuar a sua caminhada vocacional:
- Então, diga-me lá, ó soldado, ouvi dizer que te dizes seminarista e queres ser padre!
- Sim, meu sargento!
- Pois então, que não o veja aqui a disparar por todos os lados pai-nossos, hossanas ou avé-marias, que isto é um quartel e não um seminário e muito menos uma igreja.
- Mas fora do serviço, meu sargento, com todo o respeito...
- Nem fora nem dentro, soldado... Vinte flexões por hesitar no que lhe disse!
Joaquim foi bem provado e torturado nas suas convicções por aquele sargento, mas a sua alma sacerdotal despertava quando prestava cuidados aos colega, se disponibilizava para a porta de armas e outros serviços de fim-de-semana, para permitir a precária dos companheiros e quando não amparou até à entrada do quartel, tombados pelo vinho. A dura vida de recruta não endurecera a seu coração e, terminado o seu tempo de serviço, resolveu retomar o caminho iniciado, até que subiu ao altar. primeiro como coadjutor numa paróquia longe da sua terra e dos seus amigos, durante dois anos. Nesse espaço de tempo, perdeu a sua mãe e depois o seu pai. Assumiu mais tarde uma paróquia e tornou-se conhecido de todos como sendo uma pessoa afável, atenciosa, caritativa e de um esmero pastoral exemplar.
Um dia participaram-lhe que, num dos montes que cercavam a paróquia, vivia uma senhora idosa e paralítica, presa ao seu leito e foi visitá-la: 
- Oh, Sr. Abade, como o senhor é bondoso... Vem de tão longe!...
- É meu dever, como Padre e como cristão, visitar os doentes! Como vai a senhora?
- Oh, Sr. Abade com estes oitenta e tais, presa nesta cama...
- Mas quem a sustenta? Não tem filhos?!
- Sustenta-me a caridade de quem cá vem. O meu único filho foi para o exército, era ele que me sustentava nesta velhice mas, de repente... deixei de ter notícias dele já lá vai uma meia dúzia de anos, a passar...
- Não desanime, pediremos a Deus para que ele volte!
- Oh, Sr. Abade, se um dia voltar já me encontrará morta. Não tenho que comer, a caridade de quem passa não sei quando vai durar... Já lá vão dois dias que não como nada... 
- Eu enviar-lhe-ei comida e prometo-lhe que, enquanto seu filho não vier, serei eu o seu filho e a senhora será a minha mãe. Mandarei alguém que cuide de si e lhe traga as refeições.
Desde aquele dia, o padre Joaquim foi realmente o filho daquela pobre velhinha, não lhe faltando com alimentação, higiene e cuidados de saúde e, ia visitá-la, confortá-la e levar-lhe o Viático. «Sacramento eucarístico administrado fora da igreja». Disse então para a criada num belo dia: 
- Gestrudes, não me lembra de alguma vez ter tomado qualquer refeição com aquela doente de quem me fez filho. Pois nem é tarde nem é cedo: hoje vou jantar com ela depois dos serviços paroquias. E que dia mais a propósito o de hoje, o dia de Natal e da família! Não hei-de eu jantar com a minha mãe adoptiva em noite tão santa e tão bela? A criada fez o jantar, colocou tudo numa cesta er lá foi com o bom do padre Joaquim até à pobre casa daquela viúva pobre e doente.
- Oh meu bom Jesus de Belém! Veio o Sr. Abade, veio jantar comigo?
- Feliz Natal, minha mãe! Não é dever de filho conceder à mãe uma ceia em noite santa?
- Oh meu Deus, que não mereço um filho sacerdote!
Posta a mesa pelo padre Joaquim, quando já jantavam o tradicional bacalhau com batatas e couves, depois de feita a oração da bênção e sob uma noite de céu estrelado, ouviram passos no exterior e a anciã perguntou:
- quem vem lá?
- Sou eu, minha mãe!
Enquanto aquela idosa segredava ao filho, que a abraçava, os sofrimentos, a fome e o abandono que passou e o facto de estar ali, bem nutrida e acolhida por aquele que a tornara por mãe e que estava com ela à mesa, o padre Joaquim não atinava no que via. Aquele filho era o sargento que tantas provações o tinha feito passar no seu tempo de recruta. Não menos espantado, aquele homem lançou-se aos pés do seu soldado, o salvador da sua ma~e, o seu irmão de adopção e, depois de lhe ter beijado, comovidamente, as suas mãos, sacerdotais disse:
Peço-lhe perdão, padre, mil vezes perdão!
Levantando-o, o padre Joaquim sorriu, para ele, abraçou-o e respondeu:
- Agora somos irmãos, porque temos a mesma ma~e! Feliz Natal, meu irmão!
Desde então, aquele homem não mais se separou da sua ma~e e, consequentemente, tornou-se um cristão fervoroso, recuperou os valores do Evangelho que aprendera no colo da sua mãe e abandonara com o tempo e, sobretudo, fez-se sacristão da paróquia, redimindo-se de tantos anos afastado de Deus.
E assim, em Noite Santa, uma lição enorme aqui nos fica: aquele que fora superior, irmanou-se aos seu soldado, a quem rejeitara e agora venerava, porque quem se humilha amando será elevado pelo amor e derramará à sua volta o Espírito do Natal.

Autor desconhecido
 














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