"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Modelo Família Vicentina - César Guasti

César Guasti
(1822 - 1889)

  Nasceu em Prato, na Toscana, em 4 de Setembro de 1822, família fundamentalmente católica, à qual deveu a sólida educação, que toda a vida o manteve, sem quebrar ou desviar, no caminho do bem, por forma a constituir exemplo que de bem merece ser apontado aos vicentinos de Portugal; é-nos dado conhecê-lo, graças à extrema gentileza dos vicentinos italianos, os quais nos facultaram as necessárias fontes de informação: o óptimo livro «Cesare Guasti e la sua piétà», do P. Crispolti, três Conferências sobre Guasti e ainda o volume das cartas, o qual constitui o 7.º volume das suas obras. 
  Como historiador, crítico, filósofo e escritor, conquistou renome nas letras italianas e pôde ser classificado por Del Lungo, presidente da Real Academia della Crusca, como esplêndido artífice da palavra. Como arquivista revelou, aos vinte anos, à Itália os melhores escritos em língua toscana, nomeadamente os dos tricenticas e quatrocentistas franciscanos. E assim foi que, com apaixonado entusiasmo, católicos e não católicos tomaram contacto com a extraordinária figura de São Francisco de Assis. 
  Nas letras pôde ser tido como o escritor nobre das harmonias e também como homem da sinceridade, em contraposição a tantos que se servem dos melhores dons de Deus para nos transmitirem a dúvida.
  Dotado de requintada sensibilidade, vibrava intensamente com qualquer manifestação de arte e foi amoroso e profundo cultor do belo, como caminho para a verdade.Em florença, onde trabalhou desde os vinte e oito anos, conviveu com críticos e artistas de quem foi o grande animador e que onviam com respeito a sua opinião. A ele, como secretário da comissão de reconstrução da fachada de Santa Maria del Fiore, se deve, em grande parte, a majestade e imponência que dela fizeram a senhora das catedrais italianas.
  Espírito florentino e quase mediaval, não se impressionou grandemente com o fausto de oiro e mármores de São Paulo, em Roma, que classificou de «troppo bella» e prejudicada em arte pelo excesso de riqueza.
  Mas bem mais valiosa do que todas essas felizes disposições do seu espírito é a reputação de santidade deixada pelas suas singulares virtudes cristãs e que lhe valeu a introdução do processo de beatificação.
  Não se guardou para a idade madura: desde a primeira juventude se distinguiu pela pureza de intenção santificadora de todas as obras e assim viveu no século como se estivesse no claustro. A vida de Guasti encontrou sempre na Religião a força do seu ser e no convívio dos seus dignos ministros o melhor conforte e a mais pura alegria: mas nem por isso amou menos a pátria. Já avançado em anos, repetia que outros amores não tivera na vida senão os da Religião, da Pátria e da Arte.
  Esqueceu-lhe porém falar num quarto amor: o da Família, que ocupou uma parte tão grande do seu nobres e generoso coração! é ver o que foi o seu casamento; a perfeita união com sua mulher nos sete anos de felicidade conjugal que Deus lhe concedeu; e, depois da morte desta, aos trinta oito anos apenas, a constante recordação da sua memória e a total entrega à educação dos quatros filhos que lhe ficaram.
  Dele diz o seu biógrafo que deveu o seu perfeito equilíbrio a ter o corpo sujeito ao espírito e este sujeito a Deus.Tudo quanto se conhece da sua vida demonstra esse salutar equilíbrio, sempre mantido, desde a idade das fortes paixões. Senão, é ver a serenidade das suas disposições quando pensava em casar. Ao tomar a sua decisão, escreve uma carta admirável à sua mulher do seu grande amigo Giuseppe Mochi, senhora também da intimidade de Annunziatta Becherini, encarregando-a de comunicar a esta os seus sentimentos.
  Viúvo aos trinta e oito anos, com a vida em pleno vigor, soube compreender o altíssimo significado do matrimónio-sacramento e votou-se livremente, embora com forte sacrifício, ao estado de viuvez. entrega-se então totalmente à missão de educar os filhos e simultaneamente à da sua própria santificação, único verdadeiro interesse da vida, sempre no culto da esposa muito querida. Diariamente pratica actos de mortificação: em tudo se sujeita à vontade de Deus; ensina os filhos a rezar e com eles faz o exame de consciência.
  À educação dos filhos junta o estudo e o trabalho do arquivo do Estado e a Academia da Crusca; refugia-se na leitura dos Livros Santos, sobretudo dos Evangelhos e da Epístola de São Paulo.
  Jovem ainda, ajudou activamente a florir na sua cidade de Prato a obras das Conferências de São Vicente de Paulo, instituída por aquela alma puríssima e franciscana de Frederico Ozanam, por quem Guasti teve um verdadeiro culto.
  Foi depois membro honorário e grande protector da Conferência florentina, além do muito bem que praticava particularmente e sem que a mão esquerda soubesse o que dava a direita: foi assim que, um ano antes de morrer tornou a seu cargo uma família não pequena a quem morrera o pai.
  «César Guasti, nome que não teme o esquecimento! - Que homem! Religioso e integérrimo; viúvo em idade juvenil, obersevou nobilíssima severidade de costumes! - Que pai! Nas suas qualidades próprias de probidade e de amor à boa operosidade educou os numerosos filhos. - Que cidadão! Não nos campos de batalha, nem nos ministérios de Estado; mas serviu a Pátria com amor aceso pela sua glória e pelo seu bem, como funcionário público, como escritor e como Vice-Presidente da Deputação da História».
  Esta palavras, seguidas duma despedida sentidíssima, em que se acentua fortemente a saudade de Prato e de Florença, foram proferidas sobre o féretro de Guasti pelo seu colega, admirador e amigo, augusto Conti, em nome da Academia da Crusca.
  Ficam bem aqui, a fechar a breve notícia, que se quis dar aos portugueses de mais sublime modelo vicentino.         

Sem comentários:

Enviar um comentário