"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

domingo, 8 de junho de 2014

Frederico Ozanam «Primeiro dia»

FORMAÇÃO VICENTINA.
Rezar 15 dias com
FREDERICO OZANAM.


FACE ÀS PROVOCAÇÕES, A AJUDA DA FÉ.

Tantas vezes vi chorar o meu pai e a minha mãe, porque, de catorze filhos, Deus só lhes deixou três! (CHA2).

Quando Frederico Ozanam nasceu, em 1813, a mortalidade infantil era um grande flagelo: era de um terço, no fim do século XVIII. Mesmo tendendo a baixar (em 1796 iniciou-se a vacinação contra a varíola e houve progressos na arte do parto), em 1850 lamenta-se a morte de uma criança de menos doze meses em cada seis que nasciam. Hoje, esse drama é claramente menos frequente, mas, seja qual for a idade, seja qual for o motivo, a morte dum filho é sempre uma provação cruel para os pais. A esperança numa numa vida futura e o recurso à oração podem ajudar a família a ultrapassar essa tragédia. No decurso do século dezanove, sobretudo entre as classes privilegiadas, vai-se generalizar o filho único que se torna precioso e adquire um novo valor. Redescobre-se a ama-de-leite. As famílias desafogadas confiam os seus bebés a amas que vivem normalmente no campo, onde as condições de higiene são muito deficitárias: têm vários bebés aos seus cuidados, para aumentar os seus parcos rendimentos; o seu leite materno deixa de ser o melhor. Os pais de Frederico perderão deste modo vários bebés. Frederico é o quinto filho dum lar que teve catorze. Beneficia da atenção que a sua irmã, Elisa, tem para com ele.

Tinha uma irmã, uma irmã muito amada, que me educava, juntamente com a minha mãe; essas lições eram tão doces, tão bem apresentadas e tão apropriadas à minha inteligência infantil que eu tinha nelas um verdadeiro prazer (MAT1).

Evocará a sua querida irmã mais velha em várias cartas e no prefácio do seu livro La Civilisation au Ve siècle

Primeira professora, uma irmã inteligente, piedosa como os anjos, a quem se juntou (CIV).

Pois Elisa morreu aos dezanove anos, mergulhando o pequeno Frederico no mais profundo desgosto. 

Teria sete anos quando a minha irmã, a minha boa irmã, morreu. como partilhei a dor comum. Oh! que grande desgosto tive (MAT1)


A infância de Frederico foi assim marcada pela morte de onze irmãos e irmãs. Foi também profundamente marcada pela piedade familiar. Seguir os exemplos do seu pai, da sua mãe e da sua irmã. A fé dos pais permite-lhe ultrapassar esses lutos tão próximos. Se se sabe pouca coisa acerca da prática religiosa de seu pai, Frederico evoca, numa carta de 15 de janeiro de 1831, a maneira  como foi instruído. Este catolicismo que outrora me foi ensinado pela boca de uma excelente mãe, que me foi tão querida na infância e tantas vezes alimentou o meu espírito e o meu coração com as suas belas recordações e as suas ainda mais belas esperanças (FOR1).



Ela vivia a sua fé com convicção, participando nas celebrações, na recitação do terço, nas festas dos santos patronos da família; durante muitos anos teve uma participação ativa numa associação de trabalhadores: a sociedade dos Veilleuses (Veladoras), formada para ir de noite velar na comunhão dos santos, testemunhada assim por Frederico Ozanam:


Vi muita gente invejar à minha mãe a felicidade de ter três filhos que permaneceram fiéis aos catolicismo; a verdade é que ela tinha, no céu, outros onze filhos que rezavam por estes (LAL2).


Quando tenho a felicidade de comungar, quando o Salvador me vem visitar, parece-me que ela o segue, no meu coração pecador, como tantas vezes ela o seguiu, levado no viático, às casas dos indigentes; e então, creio firmemente na presença real da minha mãe junto a mim (FAL2)


Ela inculcará estas mesmas práticas a Frederico: participar na Missa, preparar as confissões e a sua primeira comunhão. Reza-se em família, hábito que nos nossos dias já quase desapareceu. Não será essa uma explicação para a indiferença de tantos jovens? Frederico agradecerá muitas vezes a Deus por lhe ter dado tal mãe.

Agradou-vos formar, vós mesmo, esta santa mulher: aprendi, nos sues joelhos o vosso temor e, no seu olhar, o vosso amor (PIS). 

Nós também bendizemos o Senhor pela graça dada a Frederico. Agradeçamos-lhes igualmente por todos as mães que, pela sua fé, coragem e abnegação traçamos um caminho recto para os seus filhos. Depois de uma estadia de alguns anos em Itália, a família regressou a Lyon, em Novembro de 1816, a um apartamento no número 5 da rua Pizay (perto do museu das Belas Artes), que ocupará até à morte do pai, em 1837. O imóvel é bastante bonito, com pedras que enquadram um pátio interior. Frederico cresce num ambiente familiar excepcional. Seu pai, médico no Hotel-Dieu (hospital principal) de Lyon, cuida também de doentes particulares. Ao morrer, Frederico calcula que um terço das consultas eram dadas gratuitamente a pessoas indigentes. Será reconhecido como «médico dos pobres», vivendo uma fé concreta ao seu serviço. a família vive num dasafogo relativo, mas bastante. 

Tenho vontade de dar graças a Deus por em ter feito nascer numa dessas posições, no limite entre o incómodo e o desafogo, que nos habituam às privações sem deixar de todo os prazeres; onde não nos podemos deixar dormir na satisfação de todos os desejos, mas onde também não somos distraídos pelas solicitações contínuas das necessidades (LAL1). 

Nesta atmosfera, a fé de Frederico cresce. Para além da sua participação assídua na Missa, ê a Bíblia, onde faz anotações frequentes. Mais tarde, é com Amélie, sua esposa, que reza de manhã à noite. ela mesma escreve: «A sua piedade era viva e consoladora. Encontrava na prática da nossa querida religião, nos sacramentos, uma força dum ardor sempre renovado e, nos últimos dias da sua vida, uma calma, uma paz que vinha do céu»(NOA) 
Porá em prática a sua fé, durante toda a sua vida, visitando os pobres, atento à interrogações cristãs dos seus amigos, às sua dúvidas, educando a sua pequena Marie, nunca hesitando em proclamar a sua fé perante os seus alunos e os seus colegas, na Sorbonne. 

Se vos alimentásseis desses admiráveis doutores da Idade Média e desse Padre, isso constituiria uma leitura muito digna da vossa nobre inteligência e não deixaríeis passar de passar de moda a revolução, nem a liberdade, nem a tolerância, nem a fraternidade, nem nenhum desses grandes dogmas políticos servidos pela revolução, mas descidos do Calvário (HAV2).

Convida-nos a fazer o mesmo que ele, com delicadeza e humildade, a não ter medo de afirmar os valores de que vivemos. Com a ajuda de Frederico, temos de meditar e, por vezes, defender a nossa fé, se for preciso e quando for preciso. Alguns ficar-nos-ão agradecidos e reconhecer-nos-ão como discípulos do Senhor.

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