"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Lenda da Princesa Fátima

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Castelo de Vila de Ourém

Vem correndo de geração em geração que a Princesa Fátima,(1)  ainda mais bela do que jovem, vivendo recolhida no seu alcácer, (2)  foi proposto casamento com o seu primo Abu homem rico e poderoso. Era filha única do emir (3) – e tal privilégio dava-lhe direito a ser tratada como verdadeiro tesoiro. Seu pai temeroso de que a vissem – e maculassem com o seu próprio desejo – os olhos ambiciosos dos cristãos, manda construir só para ela uma torre ricamente mobilado onde Fátima passava os seus dias e noites, tendo por sua companhia as aias. Entre ela a Princesa escolheu a mais velha e a mais fiel, Cadija. Um dia a Princesa manda-a chamar e confidência-lhe que o seu coração estava mais virado para um outro, um cristão, de nome Gonçalo Hermingues (4)  – conta a lenda e a própria História de Portugal - conhecido por «Traga-Mouros», jovem guerreiro, corpulento que tinha como seu rei e senhor “D. Afonso”. Gonçalo Hermingues, forjou um plano para levar a sua Princesa e numas noite de São João, Festas das Luzes, (5)  tal como mandava a tradição entre moirama, formou-se o cortejo pela noite dentro… (6)mas surge-lhes pela frente o temeroso e poderoso seu primo Abu que de princípio leva a melhor mas Gonçalo Hermingues furioso e valente consegue arrebatar das mãos de Abu. A luta tornou-se então aspectos de epopeia e como os seus gritos:

- «Por Santiago, aos Mouros!» (7)  Levantando os braços para os seus companheiros dando ordens de retirada. Agora o grito de combate tinha o som forte duma bandeira que se ergue entre os despojos:


- Por Santiago e rei Afonso! (8) Tomando a sua princesa levando-a consigo e apresentando-a como triunfo a seu amo,  D. Afonso Henriques, embora sendo surpreendidos pelos Sarracenos, que se tinha reforçado para tirar a sua vingança, (9)  - A luta foi curta. curta e terrível.  Terrível e fatal para o rico e poderoso Abu (10) . Diz-se que D.Afonso Henriques felicitou vivamente por mais este brilhante sortida, perguntou que recompensa desejava. Pediu que queria casar com a sua Princesa que el-rei de Portugal acedeu mas exigiu como contrapartida que a Princesa se convertesse ao Cristianismo. Assim se cumpriu. Dali seguiram e como consta a lenda velhinha, a Terra de Fátima, (11) que mais tarde se transformou apenas em Fátima, nome hoje conserva ainda. como prenda de núpcias, El-Rei D.Afonso Henriques ofereceu-lhes a vila da Abdegas, (12) para onde foram viver e em homenagem à linda princesas convertida – Vila de Oureana, hoje transformada na vila de Ourém.

Relembram-se aqui os mais belos versos de Gonçalo Hermingues dedicado à memória da sua amada.

                        Ora vos tinha, ora não,                 
  Mas a outros vos tomava.
             Éreis minha, já não éreis,           
Que em lutas todos andavam,
              Em mil sortes pelejando.             
  Aí de mim, te vejo eu…
      Aguentem-se, companheiros,      
Eu por mim tenho o que é meu.
             Oriana, ai tem por certo              
Que a vida que hei-de viver
          Tudo esqueceu por teu bem         
         E mais ninguém há-de ver!   
    
1) – Fátima – É nome autentico nome mouro, pois já se chamava Fátima a própria filha de Maomé, esposa legitima de Ali, o quarto dos califas. Segundos estudiosos, a dinastia dos Fatimitas derivou do casamento de Fátima, a filha de Maomé, com o seu primo Ali.
2) – Alcácer – Palácio acastelado, no tempo dos Mouros. Neste sentido, também se escrevia alcazar, alcaçar e alcacere todas elas palavras derivadas do termo árabe «el Ksar».
3) – Emir – Chefe mouro. Emir ou amir ou ainda Vali, era o título oficial do régulo ou chefe supremo sujeito ao Califa de Damasco. Dele deriva a palavra almirante.
4) – O Poeta – De facto, estudiosos da época apontam Gonçalo Hermingues, «O Traga-Mouros», como um dos poetas da corte de D. Afonso Henriques.
5) – A Festa das Luzes – Celebrava-se entre a moirama na noite de Junho que correspondia, entre os Cristão, à noite de S. João.
6) – O Cortejo –Frei Bernando de Brito descrevia-o na «Crónica de Cister»: «Os Mouros andavam ocupados nas festas e jogos que costumam fazer em tal dia e na madrugada  antes de romper a manhã, tendo o campo seguro e o rio desocupado de velas contrárias, abrindo as portas da Vila, se saíram ao campo Mouros e Mouras e outros metidos  em batéis se largaram  pelo rio cantando romances e trovas ao mourisco. As Mouras nobres espalhavam umas pelas hortas  com capelas de flores na cabeça acompanhadas de Mouros ilustres».
7) – Por Santiago, aos Mouros – Era nesse tempo o grito de combate dos cavaleiros cristãos.
8) – Por Santiago e Rei Afonso – Outro grito de combate, indicativo da vitória já alcançada, em honra de D.Afonso Henriques.
9) – A Vingança dos Mouros – As crónicas referentes ao temerário feito de Gonçalo Hermingues em registos que o Mouros, depois da primeira derrota,  buscaram reforços atacando os Cristãos, querendo os Sarrecenos vingar-se assim da afronta sofrida.
10) – A Morte de Abu – Frei Bernardo de Brito refere na «Crónica de Cister» «… e quando o capitão viu que um Mouro de cavalo a tomava para se recolher com ela o pôr em salvo: pelo que, largando tudo de mais e pondo as pernas ao ginete, se lançou trás o Mouro com tanta velocidade como um raio, sem bastarem a o deter. Muitos lhes saíram ao encontro, dado com a lança de arremesso lhe podia fazer dano, deixou de lha atirar por não ofender a Moura que levava consigo, pelo que apertou tanto o cavalo, que houve de chegar ao Mouro a quem feriu e matou logo de uma cruel lançada e cobrou a Moura, com a qual se tornou à escaramuça…»
11) -  Fátima – Actualmente Fátima é freguesia do conselho e comarca de Vila Nova de Ourém. Em Fátima há outras lendas como a Lenda da Senhora das Ortigas.
12) – Abdegas – O citado Frei Bernardo de Brito lhe chame «Abdegos», parece que na verdade o primeiro nome da terra foi Abdegas como costa da doação do eclesiástico, feito em 1183, pela Rainha D. Teresa ao mosteiro de Stª Cruz de Coimbra.

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