"Eu gostaria de abraçar o mundo inteiro em uma rede de caridade"
António Frederico Ozanam

domingo, 19 de março de 2017

São Vicente e Portugal

S. Vicente em troca de correspondência com o Pe. Codoing superior de Roma, em 1644, dizia: fiquei bem impressionado com a vocação daquele povo e talvez faça chegar para lá um sacerdote para Portugal. Foi a evangelização do Oriente e as viagens dos missionários para Madagascar que fizeram Vicente pensar em Lisboa como lugar de passagem e decisão. O projeto não se realizou, mas mostra o interesse de S. Vicente por Lisboa. Claro que nessa altura Portugal fazia parte de Espanha, embora já se passa 4 anos da Independência em 1640.

O que apraz registar, me pareceu que foi a partir desta altura, mais propriamente que os Padres Lazaristas começaram a afixar por Portugal. Remeto o pequeno texto deixando à vossa leitura atenta.
S. Vicente e Portugal
Uma carta de Vicente de Paulo para o Pe Codoing, supe­rior de Roma, dizia, a 12 de agosto de 1644: “Segundo me diz na sua última, se formos para Goa, poder-se-á fazer chegar todos os anos de Lisboa a Goa e de lá a Ispaáo. O que V. Rev. me diz da vocação para aqueles lugares im­pressiona-me, nomeadamente o caso das Índias. Já pensei num sacerdote e num clérigo para Portugal: e talvez os mandemos por ocasião da ida do embaixador que para lá val”
Foram poucas as relambes de S. Vicente de Paulo com Portugal. Recorde-se que nos primeiros 60 anos de vida de S. Vicente, Portugal esteva politicamente ligado á Espanha. Só a partir de 1640 Portugal existe como nação independen­te e, ainda assim, com dificuldades várias para se impor na Europa e em Roma.
Foi a evangelização do Oriente e as viagens dos missio­nários para Madagascar que fizeram Vicente pensar em Lisboa como lugar de passagem e decisão. O projeto a que alude a carta acima náo se realizou, mas mostra o interesse de S. Vicente por Lisboa.
A restauração da independência de Portugal em 1640 não teve apenas dificuldades militares. Também as teve diplomá­ticas. Madrid dificultou o reconhecimento da autonomia por­tuguesa por parte de Roma. O reatamento das relações diplo­máticas entre Lisboa e Roma e o provimento das Sés portugue­sas que iam vacando é o assunto ou “as coisas” de que se trata nesta carta de S. Vicente a Mons. Ferentili, de 16 de outubro de 1654 (SVP tomo V p.62):
“Recebi a carta e o livro que V. Ex. cia manda para o embai­xador de Portugal, em cujas mãos eu mesmo o entreguei e que e lê recebeu com muito respeito e testemunho de gratidão por V. Ex. cia. Daí tomei ensejo para lhe dizer duas pa­lavras sobre V. Ex. cia e da considerarão de que goza, tanto na corte de Roma como nesta, e isso, Monsenhor, em vista das coisas que o seu amo demanda em Roma e da exposição que deve fazer das mesmas que procura. Não abriu a carta de V.E. na minha presença, mas fez-me a honra de me dizer que desejava vir passar um dia inteiro connosco em S. Lázaro, para me dar a honra de falar mais á vontade. Se tal honra me conceder, pode estar certo, Monsenhor, de que nada esquecerei do que julgar a propósito dizer­-lhe para seu serviço”.
O embaixador de que se Pala aqui era D. Francisco de Sou­sa Coutinho (cf Hist. Diplomática de Portugal, vol I, 144)
Igualmente digna de nota é a carta que, de Madagascar, escreve o P. Étienne a S. Vicente, em 1 de março de 1661. “bem necessário seria que todos quantos destinardes para as Índias (refere-se a todo o Oriente) soubessem a língua portuguesa, porque é entendida em toda a parte, e quase não há negros, sobretudo nas Índias, que a não falem. E o que tenho ouvido dizer a toda a gente e o que eu mesmo tenho observado”. S. Vicente não leu esta carta, mas ela mostra que Portugal não era desconhecido para o santo.
Lazaristas em Lisboa
Na viagem (sem retorno) que os missionários faziam para Madagascar, passavam ao largo da costa portuguesa. Apenas a quinta expedição, que saiu de Nantes a 14 de Marco de 1658 e composta pelos Pes. Le Blanc, Arnoul, Desfontaines, Daveroult, o clérigo Delaunay, um irmão coadjutor e dois negros que tinham sido catequizados em S. Lázaro e agora regressavam á sua terra natal, aportou a Lisboa.
Uma tempestade avariou o barco (outra versão diz que foi assaltado por piratas), que oito dias depois aportou a Lis­boa, por avaria. Os missionários foram acolhidos no palácio do Conde de Óbidos (hoje, edifício da Cruz Vermelha), sobranceiro ao Tejo. Reparadas as avarias o barco seguiu via­gem com os missionários, menos o Pe Daveroult que, certamente, por doença não embarcou. Os Condes de Óbidos, D. Vasco e D. Joana, hospedaram e trataram carinhosamente os primeiros lazaristas em Portugal. O Pe Daveroult ficou em Lisboa até meados do ano seguinte, 1659 (cf. duas cartas em SVP, Coste Vol. VIII).

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